Após se aposentar do MMA, lutador amazonense Bibiano Fernandes fala dos planos para o futuro
O Japão é o primeiro destino de Bibiano após pendurar as luvas, mas a viagem ainda não é para fazer turismo: é que no dia 23 de março ele será o segundo atleta a entrar no Hall da Fama do One Championship
Os primeiros dias de aposentadoria de Bibiano Fernandes foram de recuperação. O manauara, que vive no Canadá, aproveitou os momentos após a luta contra Kevin Belingon para se recuperar do desgaste físico, mental e dos golpes aplicados pelo filipino no One 171. Foi durante o evento que aconteceu no dia 20 de fevereiro em Lusail, Catar, que o “The Flash” anunciou que iria pendurar as luvas aos 44 anos e após 21 anos dedicados às artes marciais mistas.
Porém, os primeiros dias após se retirar dos ringues não foram tão sossegados assim já que o descanso foi “interrompido” pelo toque do telefone por várias vezes. “Primeiro dia de aposentadoria já me ligaram: Bibiano, vamos fazer negócios. Bibiano, estou com saudades, vem em Manaus. Venha na Califórnia. Venha me visitar no Japão”, conta o lutador em entrevista enquanto se diverte.
E é a terra do sol nascente o primeiro destino de Bibiano após pendurar as luvas, mas a viagem ainda não é para fazer turismo: é que no dia 23 de março ele será o segundo atleta a entrar no Hall da Fama do One Championship, franquia asiática onde o ‘The Flash’ lutou por 13 anos. Ao todo, foram 16 lutas e 11 defesas de título na franquia. No período, Bibiano também conseguiu emendar uma sequência de nove lutas e cinco anos de vitórias. Um reconhecimento pela brilhante carreira no evento.
Perguntado sobre o balanço que faz da trajetória não apenas no One, como no MMA, Bibiano vê de forma positiva tudo o que fez e que o esporte, mais especificamente, o jiu-jitsu, mudou a vida dele e proporcionou com que chegasse longe.
“O balanço que faço da minha carreira é positivo. Fui 11 vezes campeão do One Championship. Conheci o mundo todo através do esporte, tive várias oportunidades, entrei no livro dos recordes. Eu estou conversando com você por causa do esporte. Consegui ter minha família, ter Deus no meu coração. Eu sou uma pessoa dedicada, que sempre quis vencer, sempre superei a dificuldade através do esporte”, disse antes de completar.“
O jiu-jitsu mudou a minha vida. Sempre falo que o jiu-jitsu salva e sempre foi uma ferramenta que sempre usei não só na luta, mas na vida. Nunca desisti, soube esperar e o jiu-jitsu me deu tudo: minha família, tudo no esporte, me deu humildade, paciência, saber agir, esperar, caminhar, aprender, escutar e me deu disciplina. Tanto o jiu-jitsu quanto o MMA”, disse o lutador, que é cria do bairro do Coroado e é faixa preta 5º grau da arte suave, além de ter tem cinco títulos mundiais e três pan-americanos da IBJJF.
Seguindo na ativa
Bibiano disse que a decisão de aposentar foi pelo bem da “saúde física e mental”, já que lutar MMA em alto nível exige muito do atleta. “Nossos órgãos, movimentos, reflexos vão parando e chega num ponto que tomei a decisão não só para mim. Eu não posso lutar para o resto da minha vida, eu sou ser humano”. Outra motivação para pendurar as luvas foi acreditar que outros atletas seguirão fazendo história e que já era hora de se retirar para dar espaço à nova safra de lutadores.
“Eu fiz a minha história. Lutei, representei o Brasil, representei as pessoas e eu tenho que deixar outras pessoas seguir adiante. Agora deixo os próximos campeões continuarem o que eu consegui lá atrás que foi criar a divisão do peso galo”.
Mas se engana quem pensa que Bibiano deixará de lutar. É que recentemente, ele competiu em eventos de jiu-jitsu e espera poder competir na arte suave.
“O jiu-jitsu é meu amor. Jiu-jitsu eu consigo lutar até os 50, 80 anos… o MMA não porque é tudo junto. No MMA tem a categoria de peso, idade correta, então com certeza tenho interesse em continuar no jiu-jitsu. Talvez este ano ou no próximo eu faça algum evento lutando jiu-jitsu”.
Outra forma de Bibiano seguir no ‘caminho suave’ é continuar administrando a sua academia, no Canadá. Ele conta que fora do MMA, poderá se dedicar ainda mais à The Flash Academy Martial Arts, que fica em Langley, no Canadá. A academia foi inaugurada em outubro do ano passado, quando Bibiano já pensava em aposentar e recebeu ‘um empurrão’ de Renzo Gracie, a quem ele agradeceu no discurso de despedida no dia da luta contra Belingon.
“Eu nunca vou parar de evoluir. Tenho ambição de sempre melhorar e preciso ajudar pessoas também. Moro no Canadá há 22 anos, tenho alunos para cuidar na minha academia e fazer não apenas campeões, mas fazer seres humanos para o mundo e ensinar as pessoas. E a The Flash Academia abriu porque o Renzo me puxou, me ajudou e me incentiva e aconselha. Hoje eu digo que ele é meu padrinho e ele ri pra caramba”, contou.
O ato final
A despedida de Bibiano do MMA foi marcada por um duelo emblemático contra Kevin Belingon. Ao longo da carreira, brasileiro e filipino construíram uma rivalidade em cinco capítulos – ou lutas. E com tanta história, não teria um duelo mais significativo para o manauara encerrar a carreira. Tantos embates significaram um conhecimento entre os oponentes e que deixaram a luta ainda mais luta para ambos.
“Foi uma luta dura. Ele é um bom atleta, explosivo, movimenta bastante, mas conseguimos mais uma vitória. Já lutamos várias vezes, eu sei muito dele e ele sabe muito de mim, então foi uma luta bonita de assistir. A técnica estava boa, meus movimentos estavam legais, as quedas que dei nele foram boas, mas ele evoluiu bastante, também cresceu muito”.
Apesar de conhecer bem Belingon, Bibiano diz que o filipino tentou surpreendê-lo e foi necessário muita inteligência para não cair na armadilha do adversário. “Desta vez ele veio bem diferente. Ele veio chutando muito minha perna. A estratégia dele era tirar minha perna, tirar meus movimentos e eu não poder derrubar, não poder movimentar, então eu tive que analisar bem rápido. A estratégia que ele teve de chutar minha perna foi boa, só que eu consegui ver antes dele continuar chutando, mesmo assim ele ainda me deu uns chutes ali”, explicou. No fim da luta, Bibiano venceu por decisão dividida dos juízes, totalizando quatro vitórias a uma.
Bastante emocionado, Bibiano fez o tradicional gesto de deixar as luvas no meio do ringue, sinalizando a aposentadoria e, em meio às lágrimas, ele conta que o sentimento era de dever cumprido não apenas pela trajetória como também a de inspirar tantas pessoas ao redor do mundo através da luta e da sua carreira no MMA.“
O que passou na minha cabeça na hora que deixei a luva foi de missão cumprida. Tive uma história que eu consegui levar por muitos anos, com mais de 20 anos fazendo. Várias décadas da minha vida dedicada ao esporte e agora eu fechei uma página. Estarei pronto para abrir outra página da minha vida. Agradeço a Deus pela oportunidade que ele me deu, de saúde, de poder levar a minha arte do jiu-jitsu, a minha fé e esperança. Como eu falei quando deixei as luvas: agora é um novo passo. Vou cuidar da minha academia e dos meus alunos”.
*Com informações Da Acrítica.
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